Quando se trata dos desafios para se promover uma gestão hospitalar de qualidade, desde a melhor fiscalização de recursos ao controle de qualidade no atendimento ao paciente, existe um assunto que exige extrema atenção de hospitais e demais instituições de saúde, que são os eventos adversos.
Apesar do termo poder ser aplicado em outras áreas, ele é bastante conhecido na saúde, pois é utilizado para classificar falhas de processo, erros médicos ou infecções provocadas por uma má assistência ao paciente. Em alguns casos, essa adversidade pode colocar em risco a segurança do paciente.
Trazendo a teoria para prática, qual é a situação da nossa assistência médica, em nível nacional, nos casos em que precisamos lidar com eventos adversos?
No Brasil, os eventos adversos – mais especificamente, os classificados como mais graves – correspondem a 6 mortes por hora nas instituições de saúde. É o que mostra o 2° Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar no Brasil, publicada em 2018 pela Agência Brasil. Para se ter uma dimensão do problema: das mais de 54 mil mortes provocadas por estes, pelo menos 36 mil delas poderiam ter sido evitadas.
De acordo com o levantamento, as situações mais perigosas (e, infelizmente, comuns) nas instituições de saúde são:
O mais alarmante é que, segundo o próprio anuário, alguns desses eventos adversos graves não contam com qualquer programa de prevenção ou combate, independente de ser em uma rede pública ou privada.
Em outras palavras: além de termos defasagens processuais nas instituições de saúde – que representam risco à segurança dos pacientes -, não existem programas ou medidas protetivas que assegurem que haverá melhorias no sistema, contribuindo para que haja um círculo vicioso e prejudicial à assistência à saúde de qualidade.
Além disso, outro fator bastante prejudicial neste cenário está nos gastos envolvidos para se combater os eventos adversos e que representam enormes cifras aos cofres das instituições de saúde: só em 2017, foram cerca de R$ 10,6 bilhões gastos no sistema privado.
Como já antecipamos, uma das principais consequências dos eventos adversos está em colocar o paciente em risco. Porém, existem outras categorias de adversidades que também precisam de nossa atenção. São eles: eventos adversos a medicamentos ou a vacinas.
Também conhecida como EAM, estamos nos referindo a toda e qualquer situação na qual o paciente apresenta uma reação ruim ou não esperada de uma medicação. Nesses casos, as principais causas são similares a eventos de outras naturezas: erros na prescrição ou na administração de medicamentos.
No caso da vacinação, definimos como EAPV toda e qualquer reação indesejada ocorrida após a vacinação de um paciente. Os eventos adversos a vacina podem ser esperados ou não, dependendo dos imunobiológicos presentes na dose aplicada, uma vez que o papel na vacina, dentro do organismo, é o de justamente estimular a criação de anticorpos para uma determinada doença.
Ambas as situações devem ser consideradas como uma falha bastante grave, ainda mais considerando que toda instituição de saúde deveria contar com a supervisão atenta de um farmacêutico responsável, para assim evitar situações como esta. E, por isso, faz-se necessário o reforço de medidas de segurança a fim de evitar a ocorrência de novos eventos.
Talvez um dos principais caminhos para prevenção de eventos adversos, para além da fiscalização constante, está no maior acesso à informação dos profissionais de saúde, evitando-se assim a incidência de erros.
Felizmente, existem diversos materiais gratuitos e online que auxiliam nessa atualização constante, como o caso do Ministério da Saúde com o Manual de Vigilância a Eventos Adversos Pós-Vacinação, que consiste em uma série de análises e estudos de casos com objetivo de facilitar na hora de reconhecer e/ou prescrever determinadas vacinas.
Mais do que informação de qualidade, outro fator importante é termos mecanismos que colaborem para maior fiscalização das instituições de saúde e, dessa forma, mitigar esses problemas. Um bom exemplo de medidas neste sentido é o da própria ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Além de ser um portal informativo, por publicar conteúdos frequentemente sobre o assunto, o órgão regulador lançou, em 2018, o sistema eletrônico VigiMed com objetivo de reunir, em um só lugar, notificações e registro de todos eventos adversos ocorridos instituições de saúde municipais e estaduais.
O sistema permite o acesso fácil e rápido, sem necessidade de cadastro, por cidadãos e profissionais liberais vinculados aos serviços de saúde e à Vigilância Sanitária. Nele, a base de dados é utilizada como fonte de consulta, contribuindo para uma maior fiscalização por parte do órgão regulador.
Dessa forma, toda a cadeia hospitalar e todos os profissionais envolvidos no cuidado ao paciente participam dessa missão de identificar e catalogar potenciais eventos adversos, combatendo-os com mais eficácia.
E isso nos faz entrar em um terceiro ponto trivial: o da capacitação técnica dos profissionais de saúde para uso de softwares que auxiliem nesse trabalho. Com o avanço da tecnologia, contamos hoje com dispositivos que nos ajudam desde a monitorar a qualidade de armazenamento de medicamentos até a atualizar o histórico dos pacientes de uma instituição.
De pouco adianta dispor de tantas ferramentas sem o conhecimento técnico necessário para utilizá-lo. E isso vale, por consequência, na análise de dados para identificação de potenciais eventos adversos ou repetições dessas adversidades.
Sabemos que os eventos adversos a medicamentos ou a vacinas são um problema sério e o seu combate significa um desafio árduo para profissionais e instituições de saúde em todo o Brasil. Portanto, é fundamental dar atenção ao tema para que possamos, cada vez mais, garantir uma assistência à saúde de melhor qualidade e, mais do que isso, um serviço que garanta mais segurança aos pacientes, mitigando potenciais riscos e tendo o controle sob quaisquer imprevistos que possam acontecer.