Todos os processos que envolvem o transporte e o armazenamento de sangue e seus componentes exigem total atenção e cuidado. Pois são uma parte crítica das operações em saúde, especialmente entre os serviços de hemoterapia.
Por conta do número de hemocentros e instituições que prestam serviços de coleta e fazem o manuseio do sangue, a Anvisa criou o Manual de Vigilância Sanitária para o Transporte de Sangue e Componentes. A segunda edição do documento, publicada em 2016, traz todas as instruções para o manuseio de hemocomponentes e hemoderivados nas etapas de transporte.
Porém, as falhas no setor público ainda causam danos à saúde e perdas financeiras significativas. No início de 2020, o Ministério Público de Contas denunciou a perda de 2,7 milhões de bolsas de plasma que estavam sob a gestão do Ministério da Saúde.
Os quase 600 mil litros de plasma sanguíneo perdidos desde 2017 até o começo do ano afetam grave e diretamente uma grande parcela população: a que doa e a que recebe a doação.
Além disso, para os cofres públicos, o rombo é imenso. Conforme relatório do Ministério Público Federal, os custos de armazenamento do material perdido resultaram num prejuízo que varia de R$ 821 mil a R$ 1,38 milhão por ano.
Nesse sentido, a importância que o material sanguíneo apresenta – entre custos de operação elevados e valor moral inestimável – reforça a necessidade de uma gestão eficiente. Isso é necessário para manter a qualidade do produto e a segurança transfusional.
O Manual de Vigilância Sanitária está baseado numa série de fundamentos e boas práticas de transporte. O objetivo é orientar as instituições para o cumprimento dos requisitos contidos nas normas e resoluções que regem o setor.
Entre os fundamentos principais podemos destacar:
A partir desses dois pilares, o documento elenca quais as ações necessárias para evitar falhas no processo, como alterações de temperatura e no tempo padronizado. Sobretudo por conta das consequências, que podem resultar em erro na triagem, sangue deteriorado ou contaminado e perda da qualidade em geral, que interferem negativamente no tratamento do paciente.
Outro ponto importante abordado está relacionado ao risco de infecção do profissional que manuseia o material biológico. Além do eventual contato com outras pessoas durante o trajeto e possível contaminação em caso de avaria das bolsas.
O ciclo do sangue se inicia com a coleta, que pode ocorrer nos hemocentros, bancos de sangue ou em unidades móveis dedicadas a coletas externas. Existem duas formas de acondicionar o sangue coletado: em bolsas plásticas com sistema de fechamento estéril ou em tubos de amostra.
No caso do sangue coletado em bolsas, o transporte é realizado até o laboratório onde deve ser feito o processamento de hemocomponentes. Posteriormente, o material armazenado será etiquetado e liberado para estocagem, distribuição às instituições de saúde e, por fim, dispensado ao paciente.
Já os tubos são encaminhados ao laboratório para análise e triagem dos doadores. Os testes, então, especificam e qualificam o sangue. Geralmente, esse é o processo realizado numa primeira doação para determinar a presença de agentes infecciosos e garantir a segurança do receptor.
Porém, em ambos os casos, a etapa de transporte até os laboratórios deve assegurar a integridade do produto. Quaisquer interferências precisam ser evitadas, garantindo a qualidade da pré-análise.
Um dos fatores de maior importância para as boas práticas no transporte do sangue é o controle e monitoramento da temperatura. Isso porque, ao ser coletado, a temperatura corporal encontra-se na média entre 36,5°C e 37°C. Contudo, para manter as propriedades biológicas fundamentais são necessárias técnicas de resfriamento.
Assim, a manutenção da temperatura deve ser rigorosa em toda a cadeia do frio do sangue. Caso ocorra quebra dessa cadeia, e o sangue seja transportado ou armazenado por muito tempo fora da temperatura ideal, perdem-se seus atributos terapêuticos.
Outro fator de igual relevância é o manuseio. Devido aos riscos que envolvem esse tipo de material biológico, é fundamental que os profissionais façam uso de EPIs, além de equipamentos de proteção coletiva.
As equipes responsáveis pelo transporte devem ser treinadas para o cumprimento da regulamentação. Desse modo, o processo envolve não apenas o trajeto do sangue, mas sua embalagem, rotulagem e documentação.
A equipe também deve treinada para casos de acidentes, vazamentos ou qualquer avaria que resulte na exposição do material infeccioso. Nesses casos, o responsável deve agir da seguinte forma:
Quaisquer erros ou equívocos de rótulo e documento relativos ao produto que forem observados precisam ser imediatamente notificados ao remetente ou destinatário. Essa ação é necessária para a adoção de medidas corretivas.
No mesmo sentido, os cuidados com a saúde da equipe que trabalha sob a exposição direta ao material biológico faz parte das ações de biossegurança. Portanto, todos devem deve ser vacinados, conforme com as normas de saúde do trabalhador.
Outro cuidado essencial está relacionado ao procedimento de higienização dos veículos e caixas de transporte. A recomendação é de que sejam utilizados somente produtos desinfetantes e saneantes regularizados pela Anvisa. Ao passo que os procedimentos de limpeza devem atender às instruções do fabricante dos produtos utilizados.
O transporte do sangue deve obedecer a classificação de riscos de materiais biológicos, seguindo a recomendação da OMS. Assim, o sangue faz parte dos produtos de Classe 6, Divisão 6.2, que engloba substâncias infecciosas. Dentro dessa classificação, estão divididas as categorias A e B.
Além disso, existem ainda os produtos biológicos humanos que não se enquadram na classificação de risco, pois não possuem agentes infecciosos ou foram submetidos a processos de esterilização/neutralização.
Estes são definidos para o transporte como materiais biológicos isentos. Entre eles estão: células, tecidos, sangue e componentes produzidos para transfusão e órgãos para transplante.
Os itens que compõem as condições de acondicionamento e rotulagem do sangue são definidos conforme a classificação de risco. Portanto, o manual da Vigilância Sanitária traz detalhadamente todas as informações e especificações que devem estar contidas no rótulo.
Por exemplo, no caso dos materiais biológicos da categoria A, não é necessário exibir os nomes técnicos nas embalagens externas. Contudo, o manual orienta aos transportadores que solicitem aos órgãos reguladores (ANTT, Anac, Antaq) as especificações detalhadas para o acondicionamento adequado dos produtos.
O manual da vigilância sanitária que orienta o transporte de sangue e componentes segue as premissas da regulamentação contida na RDC 20/2014. Ao mesmo tempo, tais diretrizes se originam das recomendações do Comitê de Especialistas das Nações Unidas para o Transporte de Materiais Perigosos.
Além disso, todas as orientações seguem uma lista de normas técnicas e resoluções de diversos órgãos. A seguir, destacamos as principais, conforme o Manual da Anvisa:
Diante de todas as normas e orientações para a qualidade e segurança nos processo que envolvem o sangue estão os profissionais de biomedicina. Geralmente, os biomédicos que atuam em bancos de sangue e hemocentros são especialistas em hematologia e terapia celular.
Por conta da exigência de qualificação para a área, esses profissionais se tornam os principais responsáveis pelas atividades de captação e triagem de doadores, coleta, processamento, transporte e estocagem de sangue e demais componentes.
Todavia, a participação do profissional de biomedicina vai além. Seja nos processos de imuno-hematologia, em terapias celulares, no diagnóstico de doenças transmissíveis através do sangue ou demais processos transfusionais.
Nesse sentido, os biomédicos hematologistas são altamente requisitados e fundamentais em todas as atividades terapêuticas que envolvem o sangue. Afinal, tais processos exigem máxima qualidade e segurança em todos os procedimentos.
Aproveite a leitura e confira também o artigo “Sangue e hemocomponentes: o que dizem os regulamentos e as legislações”.