21 novembro 2019

Ambientes hospitalares e farmacêuticos, assim como clínicas e laboratórios de análise lidam diariamente com uma série de produtos termolábeis, que exigem um controle de temperatura rigoroso, para preservar suas propriedades. Para isso, devem ser submetidos à cadeia do frio, que consiste numa condição específica em ambiente refrigerado, para manter uma duração prolongada através da conservação por resfriamento.

No caso de medicamentos e vacinas, por exemplo, esse processo de controle ocorre desde a saída da fábrica, passando pelo transporte até o destino final, seja ele postos de saúde, clínicas de vacinação, farmácias e hospitais. Dentro desses locais, portanto, a cadeia do frio tem início no recebimento do material termolábil e se encerra até o momento da administração ao paciente.

Ou seja, trata-se de um ciclo de conservação que necessita de manutenção e monitoramento constantes, para que seja preservada a qualidade do produto e sua eficácia.

Podemos citar alguns dos insumos que dependem da cadeia do frio:

– medicamentos;
– vacinas;
– hemoderivados;
– hemocomponentes;
– órgãos doados para transplante;
– leite materno;
– alimentos.

O acompanhamento dos produtos que são submetidos à cadeia do frio costuma ser feito através de checagem da temperatura pelo profissional responsável. Por exemplo, ao receber um medicamento termolábil que precisa ser mantido entre 8ºC e 15ºC, é preciso conferir a temperatura no recebimento e imediatamente guardar o produto em ambiente refrigerado que esteja de acordo com os graus estabelecidos.

Esse ambiente, geralmente uma câmara fria, precisa obrigatoriamente ter a temperatura monitorada. No momento do transporte, um recipiente térmico deve ser utilizado e antes do medicamento ser utilizado pelo paciente, uma nova verificação da temperatura precisa ser feita.

O que ocorre, no entanto, é que em muitos locais o monitoramento do armazenamento nas câmaras frias é feito manualmente, com checagens a cada três horas e anotações em planilhas. Infelizmente, esse tipo de processo manual não é seguro o bastante, e pode quebrar a cadeia do frio, comprometendo a integridade dos medicamentos.

O que torna uma cadeia do frio eficiente?

Para ser eficiente, o processo da cadeia do frio exige uma série de ações e procedimentos. Tais ações, além de garantir a qualidade e a ação efetiva dos termolábeis, também contribuem para otimizar o trabalho dentro do setor e aperfeiçoar a gestão organizacional. Vejamos exemplos de eficiência da cadeia do frio:

– uso de tecnologia em equipamentos para monitoramento da temperatura;
– transporte em recipiente térmico apropriado, que esteja de acordo com as normas e seja feito de forma ágil e rápida;
checagem e controle da temperatura a partir do recebimento do produto;
– armazenagem adequada e monitoramento constante durante o período de estocagem;
– utilização dentro do prazo máximo determinado para que o produto fique fora da refrigeração;
– implantação de procedimentos-padrão (POP) específicos, que sirvam como guia de orientação para os profissionais envolvidos no processo.

Desafios da logística na cadeia do frio

Uma das etapas mais desafiadoras dentro do processo é, sem dúvida, a logística. Todo o transporte de medicamentos, e outros produtos termolábeis exige a máxima atenção e cuidado no que se refere ao controle de temperatura, uma vez que podem ocorrer muitas variáveis no trajeto, desde o tipo de condução até as condições climáticas.

Entre os materiais mais sensíveis à quebra da cadeia do frio estão as vacinas. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 50% da vacinas produzidas mundialmente se deterioram até atingir o destino, devido a falhas no controle de temperatura durante o transporte.

Além do enorme prejuízo material, há um risco iminente de danos à saúde dos pacientes caso haja falhas na checagem e monitoramento da temperatura a partir do recebimento desse produto.
Dessa forma, a logística de transporte desse tipo de carga exige cuidados e atenção especiais, e não podem, de forma alguma, serem tratadas como as cargas convencionais. A começar pelo acompanhamento de um profissional de saúde, geralmente um enfermeiro.

Assim, o cumprimento das normas técnicas relacionadas à cadeia do frio começa na fabricação dos medicamentos e vacinas, ou na extração de outros insumos que exigem controle da temperatura. Portanto, há um caráter de responsabilidade compartilhada sobre todas as empresas e instituições envolvidas na cadeia do frio em relação às boas condições do produto até o destino final.

Ambientes críticos: como a cadeia do frio atua em diferentes setores de saúde

Apesar de algumas invariáveis relativas à cadeia do frio, cada setor de saúde possui procedimentos específicos de acordo com o tipo de produto termolábil produzido ou utilizado. Dessa forma, não apenas os medicamentos sensíveis, mas também o sangue e outros produtos já citados apontam um nível de criticidade no seu manuseio.

Vejamos como esse processo se desenvolve nos diversos ambientes críticos:

Hospitais

As instituições hospitalares são as que lidam com a maior diversidade de insumos que exigem controle de temperatura, e por isso o processo esse tende a ser um dos ambientes mais críticos em relação à cadeia do frio.

Medicamentos, hemocomponentes e hemoderivados, leite materno, e até os alimentos utilizados nas dietas dos pacientes exigem a conservação adequada e o monitoramento rigoroso da temperatura, desde que o produto é recebido até ser ministrado.

Como há essa variação de componentes, consequentemente há uma variação maior das temperaturas e dos locais de armazenagem, o que aumenta a complexidade do processo.

Bancos de sangue

Os bancos de sangue são responsáveis pela coleta e armazenagem dos hemocomponentes e hemoderivados, que posteriormente serão encaminhados aos hospitais. Portanto, a cadeia do frio nesses ambientes está reservada à conservação das bolsas de sangue e do processamento dos componentes, até que sejam destinados ao uso.

Durante o processo, é preciso que haja rigor no controle e monitoramento, até o momento do transporte, onde se inicia mais uma etapa.

Farmácias

As farmácias são também um ambiente crítico em relação à conservação de medicamentos termolábeis, uma vez que lidam com inúmeros produtos distintos, que exigem controle específico.

Nesses locais, a cadeia do frio precisa ser mantida desde o recebimento dos medicamentos, onde deve ser feita a checagem da temperatura e seu armazenamento imediato em condições favoráveis, o que podem representar um desafio para os estabelecimentos de menor porte, em locais distantes e com poucos recursos de infraestrutura.

Clínicas de vacinação

Nos últimos anos houve um aumento significativo dos serviços de vacinação em clínicas particulares. Esse portanto, é um ambiente 100% condicionado à cadeia do frio, uma vez que todas as vacinas necessitam de conservação térmica.

No entanto, de acordo com a composição da vacina, elas devem ser mantidas em níveis diferentes de temperatura, podendo variar de graus negativos até a refrigeração entre 2ºC e 8ºC, devendo ser mantidas em refrigeradores exclusivos.

Recursos tecnológicos são fundamentais na cadeia do frio

Publicada recentemente, RDC nº 304, da Anvisa, dispõe sobre boas práticas no transporte, distribuição e armazenagem de medicamentos. A partir dessa resolução, o órgão federal determina uma série de ações necessárias para garantir a integridade dos medicamentos, com seção especial para aqueles que integram a cadeia do frio.

Entre as recomendações, estão o monitoramento e o controle de temperatura contínuos durante todo o transporte e período de armazenagem. Além disso, a RCD nº 304 sugere que esse monitoramento seja feito com uso de sistemas informatizados.

Ou seja, a preferência pela tecnologia é uma das boas práticas recomendadas pela própria Anvisa, devendo integrar a cadeia do frio como recurso garantidor da eficiência e qualidade dos processos de logística e armazenagem.

Entre as ferramentas tecnológicas consideradas como grandes aliadas da cadeia do frio, está o monitoramento de temperatura sem fio, que permite acompanhar e controlar a temperatura e a umidade através de sensores, em todas as etapas do processo.

Essa solução pode significar inúmeras vantagens, tanto em relação à redução das perdas financeiras por falhas no monitoramento, quanto pela garantia de eficácia dos medicamentos e demais insumos termolábeis, refletindo diretamente na segurança e saúde dos pacientes.

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Lucas Almeida

Cofundador e CRO da Nexxto

Trabalho todos os dias para ajudar o setor de saúde a ser mais digital e eficiente, possibilitando que mais pessoas no Brasil tenham acesso a serviços com qualidade e segurança.