Publicado em 24 dezembro 2019 | Atualizado em 4 março 2020

Os avanços da tecnologia na área de segurança da informação têm sido cada vez mais aproveitados em diversos setores. Atualmente, o uso do blockchain na saúde aparece como grande aliado de gestores e profissionais da área, em tempos onde a preocupação com o vazamento de dados cresce exponencialmente, mais ainda após a publicação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).

Considerada por especialistas como a tecnologia de maior impacto na revolução digital desde o surgimento e popularização da internet, o blockchain surgiu há cerca de 10 anos junto com o Bitcoin, como um sistema de segurança ultra seguro e sem falhas para transações financeiras com moeda digital (criptomoedas).

Por não permitir a corrupção dos dados e retirar intermediários do processo de validação das informações, empresas de diversos setores já estão aproveitando esse sistema para outras finalidades, como certificação e autenticidade de documentos, registro de contratos e de propriedade intelectual.

Percebendo a importância dessa tecnologia e os benefícios para o setor, o mercado de healthtech não ficou alheio às vantagens de inserir o blockchain no setor de saúde e algumas empresas já oferecem soluções a partir de sistemas de armazenamento de dados, onde médicos podem manter seu portfólio profissional e acadêmico, ou para que hospitais manejem dados de pacientes e da equipe de colaboradores com total segurança.

Afinal, o que é e como funciona o blockchain?

Como dissemos, o blockchain é um sistema de segurança de informações baseado numa estrutura de dados. Em bom português podemos chamá-lo de “cadeia de blocos”, já que a estrutura é formada por blocos encadeados e validados entre si.

Cada bloco dessa estrutura contém transações que carregam um determinado número de informações. De forma simplista, podemos dizer que o blockchain atua como um livro de registros onde somente pessoas autorizadas podem registrar informações.

O que torna essa estrutura “blindada” é o emprego de uma potente criptografia, capaz de garantir a segurança dos registros, que só podem ser validados por consenso e não podem ser modificados unilateralmente, sem permissão do restante da rede.

Portanto, essa é uma tecnologia predominante em aplicativos e softwares relacionados à segurança, devido à sua capacidade de manter um registro de dados incorruptível, descentralizado e transparente.

Contudo, mesmo que haja essa transparência de dados, o blockchain é um sistema totalmente privado, que oculta a identidade do usuário e dos proprietários da informação através de códigos complexos. Esse, portanto, é o grande diferencial do blockchain frente a outros sistemas de segurança de dados.

Blockchain na saúde: principais contribuições para o setor

A capacidade de proteger sensivelmente um grande número de dados é um dos principais benefícios de utilizar o blockchain na saúde. Além disso, por possuir uma natureza descentralizada e transparente, essa tecnologia também possibilita o compartilhamento das informações entre profissionais de saúde e pacientes de forma rápida e segura.

Com essa estrutura de segurança de dados, é possível intensificar o relacionamento B2C – de médicos para pacientes, no caso das instituições de saúde – estabelecendo uma relação de confiança com o sistema e aumentando a oferta de dados pessoais e de saúde.

A partir disso, é possível criar um histórico completo de informações do paciente, que pode ser acessado em situações futuras para realizar diagnósticos mais precisos e até mesmo antecipar o tratamento com base nos registros previamente fornecidos.

Conforme aponta o estudo Healthcare Rallies for Blockchain, realizado pela IBM, até 2020 cerca de 56% dos gestores de saúde devem adotar o sistema para otimizar a troca de informações dentro das organizações, demonstrando que, no curto prazo, já existe uma consciência em relação aos benefícios do blockchain na saúde e uma intenção real de investimentos em tecnologia de segurança nesse setor.

E apesar da possibilidade de gerenciamento de registros privados por meio digital ser o grande motivador do interesse de médicos e gestores de hospitais e clínicas, as contribuições do blockchain para o setor de saúde não param por aí. Vejamos, de forma resumida, alguns benefícios do blockchain no setor de saúde:

  • centralização de informações clínicas de pacientes e de quem prestou o atendimento;
  • prontuário eletrônico seguro;
  • credenciamento de médicos e demais profissionais da saúde numa plataforma única;
  • armazenamento e compartilhamento de dados sobre pesquisas e ensaios clínicos.

Pensando especificamente no último tópico da lista, a ideia de que a troca de experiências e informações entre médicos de todo o mundo pode criar um Big Data global com estudos de doenças, formas de diagnóstico e tipos de tratamento, eleva o blockchain para um nível de importância considerável, devido à contribuição mundial que essa estrutura pode trazer.

Compartilhar informação de forma descentralizada sobre as doenças mais comuns em cada região do mundo, os medicamentos mais utilizados e acessíveis, o controle de estoque do material necessário para tratamentos… Tudo isso (e muito mais), pode transitar com máxima segurança através do blockchain.

Exemplos práticos do blockchain no setor de saúde

Apesar de ser uma tecnologia ainda pouco difundida no Brasil para healthtechs, o blockchain na saúde já faz parte da rotina de diversas instituições em países como Estados Unidos e Canadá. A partir de aplicativos e sistemas desenvolvidos por healthtechs, indústria e serviços em saúde já contam com a segurança de dados a partir da estrutura da cadeia de blocos.

Registros médicos

A SimplyVital Health, localizada em Watertown, Massachusetts, já disponibiliza a tecnologia de acesso de dados com uso de blockchain. Através de um aplicativo que usa o blockchain para criar um banco de dados de código aberto, é possível que os profissionais de saúde acessem as informações do paciente e coordenem o atendimento com mais agilidade.

Outro exemplo é a Coral Health, de Vancouver, Canadá. A partir da criptografia do blockchain, a tecnologia da Coral acelera o atendimento, automatiza processos administrativos e cria contratos inteligentes entre pacientes e médicos. Tudo isso a partir da conexão com o aplicativo e acesso de dados via mobile com total segurança.

Rastreabilidade e controle de suprimentos

O blockchain no setor de saúde permite o controle e a rastreabilidade de suprimentos hospitalares e farmacêuticos, à medida que armazena dados cronologicamente em uma rede ponto a ponto. Essa capacidade torna a tecnologia adequada para resolver questões relacionadas à rastreabilidade de medicamentos, ainda mais quando existe uma legislação que determina uma série de regras de transporte e armazenagem.

Outro fator importante sobre a aplicabilidade do blockchain nesse controle, é a redução de problemas relacionados com o fornecimento de remédios falsificados. A estrutura de códigos criada através da cadeia de blocos pode identificar o produto falsificado e rejeitá-lo, evitando as fraudes.

É o caso da solução criada pela empresa francesa Blockpharma, que dispõe de um aplicativo capaz de analisar a cadeia de suprimentos e verificar os pontos de remessa, permitindo que os pacientes saibam se estão utilizando medicamentos originais ou falsificados.

Através de um sistema SCM (Supply Chain Management) baseado em blockchain, a tecnologia da Blockpharma visa eliminar todos os medicamentos falsos do mundo, que hoje representa uma parcela de 15% de um total.

Controle e prevenção

Nos EUA, o Centro de Controle e Prevenção (CDC) estão utilizando o blockchain na saúde para monitorar doenças e possíveis epidemias de modo semelhante ao que é feito na cadeia de suprimentos, devido aos recursos de processamento de dados e registros de data e hora do sistema.

Ao formar essa espécie de “trilha” de informações, os cientistas podem determinar onde e com quais padrões uma doença se originou para então eliminá-la.

Além disso, a IBM trabalha em parceria com o CDC desenvolvendo um sistema de vigilância para que as agências de saúde pública possam coletar dados sobre pacientes e prescrições de maneira mais eficaz sobre pacientes e prescrições.

Perspectivas para o futuro do blockchain na saúde

De acordo com a expectativa em torno da nova geração da tecnologia de comunicação móvel, a 5G – que tende a ser mais rápida e eficiente na transferência de dados –, os avanços feitos em torno da Inteligência Artificial, Internet das Coisas e segurança da informação se tornarão ainda mais realistas e acessíveis.

Isso se aplica também à difusão do blockchain no setor de saúde, já que diante desse novo cenário tecnológico haverá maior investimento em soluções de registro e transmissão de dados, ainda mais diante da necessidade de adequação à legislação brasileira.

Por tudo isso, podemos afirmar que o futuro de ferramentas como o blockchain para a área de saúde é bastante promissor, uma vez que essa estrutura possui potencial para sustentar um sistema rigoroso de preservação de dados dos pacientes e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso à informação de novas descobertas e estudos científicos.

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Lucas Almeida

Cofundador e CRO da Nexxto

Trabalho todos os dias para ajudar o setor de saúde a ser mais digital e eficiente, possibilitando que mais pessoas no Brasil tenham acesso a serviços com qualidade e segurança.