Publicado em 23 janeiro 2020 | Atualizado em 4 março 2020

Quando se trata dos desafios para se promover uma gestão hospitalar de qualidade, desde a melhor fiscalização de recursos ao controle de qualidade no atendimento ao paciente, existe um assunto que exige extrema atenção de hospitais e demais instituições de saúde, que são os eventos adversos.

Apesar do termo poder ser aplicado em outras áreas, ele é bastante conhecido na saúde, pois é utilizado para classificar falhas de processo, erros médicos ou infecções provocadas por uma má assistência ao paciente. Em alguns casos, essa adversidade pode colocar em risco a segurança do paciente.

Trazendo a teoria para prática, qual é a situação da nossa assistência médica, em nível nacional, nos casos em que precisamos lidar com eventos adversos?

Os eventos adversos e a saúde no Brasil

No Brasil, os eventos adversos – mais especificamente, os classificados como mais graves – correspondem a 6 mortes por hora nas instituições de saúde. É o que mostra o 2° Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar no Brasil, publicada em 2018 pela Agência Brasil. Para se ter uma dimensão do problema: das mais de 54 mil mortes provocadas por estes, pelo menos 36 mil delas poderiam ter sido evitadas.

De acordo com o levantamento, as situações mais perigosas (e, infelizmente, comuns) nas instituições de saúde são:

  • infecções generalizadas (também chamadas de septicemia);
  • complicações com acesso ou outros dispositivos invasivos;
  • complicações cirúrgicas, tais como hemorragias ou lacerações;
  • erro no uso de medicamentos.

As causas e consequências

O mais alarmante é que, segundo o próprio anuário, alguns desses eventos adversos graves não contam com qualquer programa de prevenção ou combate, independente de ser em uma rede pública ou privada.

Em outras palavras: além de termos defasagens processuais nas instituições de saúde – que representam risco à segurança dos pacientes -, não existem programas ou medidas protetivas que assegurem que haverá melhorias no sistema, contribuindo para que haja um círculo vicioso e prejudicial à assistência à saúde de qualidade.

Além disso, outro fator bastante prejudicial neste cenário está nos gastos envolvidos para se combater os eventos adversos e que representam enormes cifras aos cofres das instituições de saúde: só em 2017, foram cerca de R$ 10,6 bilhões gastos no sistema privado.

Eventos adversos a medicamentos ou vacinas

Como já antecipamos, uma das principais consequências dos eventos adversos está em colocar o paciente em risco. Porém, existem outras categorias de adversidades que também precisam de nossa atenção. São eles: eventos adversos a medicamentos ou a vacinas.

Também conhecida como EAM, estamos nos referindo a toda e qualquer situação na qual o paciente apresenta uma reação ruim ou não esperada de uma medicação. Nesses casos, as principais causas são similares a eventos de outras naturezas: erros na prescrição ou na administração de medicamentos.

No caso da vacinação, definimos como EAPV toda e qualquer reação indesejada ocorrida após a vacinação de um paciente. Os eventos adversos a vacina podem ser esperados ou não, dependendo dos imunobiológicos presentes na dose aplicada, uma vez que o papel na vacina, dentro do organismo, é o de justamente estimular a criação de anticorpos para uma determinada doença.

Ambas as situações devem ser consideradas como uma falha bastante grave, ainda mais considerando que toda instituição de saúde deveria contar com a supervisão atenta de um farmacêutico responsável, para assim evitar situações como esta. E, por isso, faz-se necessário o reforço de medidas de segurança a fim de evitar a ocorrência de novos eventos.

Mas afinal, como evitar ou prevenir os eventos adversos?

Talvez um dos principais caminhos para prevenção de eventos adversos, para além da fiscalização constante, está no maior acesso à informação dos profissionais de saúde, evitando-se assim a incidência de erros.

Felizmente, existem diversos materiais gratuitos e online que auxiliam nessa atualização constante, como o caso do Ministério da Saúde com o Manual de Vigilância a Eventos Adversos Pós-Vacinação, que consiste em uma série de análises e estudos de casos com objetivo de facilitar na hora de reconhecer e/ou prescrever determinadas vacinas.

Mais do que informação de qualidade, outro fator importante é termos mecanismos que colaborem para maior fiscalização das instituições de saúde e, dessa forma, mitigar esses problemas. Um bom exemplo de medidas neste sentido é o da própria ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Além de ser um portal informativo, por publicar conteúdos frequentemente sobre o assunto, o órgão regulador lançou, em 2018, o sistema eletrônico VigiMed com objetivo de reunir, em um só lugar, notificações e registro de todos eventos adversos ocorridos instituições de saúde municipais e estaduais.

O sistema permite o acesso fácil e rápido, sem necessidade de cadastro, por cidadãos e profissionais liberais vinculados aos serviços de saúde e à Vigilância Sanitária. Nele, a base de dados é utilizada como fonte de consulta, contribuindo para uma maior fiscalização por parte do órgão regulador.

Dessa forma, toda a cadeia hospitalar e todos os profissionais envolvidos no cuidado ao paciente participam dessa missão de identificar e catalogar potenciais eventos adversos, combatendo-os com mais eficácia.

E isso nos faz entrar em um terceiro ponto trivial: o da capacitação técnica dos profissionais de saúde para uso de softwares que auxiliem nesse trabalho. Com o avanço da tecnologia, contamos hoje com dispositivos que nos ajudam desde a monitorar a qualidade de armazenamento de medicamentos até a atualizar o histórico dos pacientes de uma instituição.

De pouco adianta dispor de tantas ferramentas sem o conhecimento técnico necessário para utilizá-lo. E isso vale, por consequência, na análise de dados para identificação de potenciais eventos adversos ou repetições dessas adversidades.

Sabemos que os eventos adversos a medicamentos ou a vacinas são um problema sério e o seu combate significa um desafio árduo para profissionais e instituições de saúde em todo o Brasil. Portanto, é fundamental dar atenção ao tema para que possamos, cada vez mais, garantir uma assistência à saúde de melhor qualidade e, mais do que isso, um serviço que garanta mais segurança aos pacientes, mitigando potenciais riscos e tendo o controle sob quaisquer imprevistos que possam acontecer.

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Lucas Almeida

Cofundador e CRO da Nexxto

Trabalho todos os dias para ajudar o setor de saúde a ser mais digital e eficiente, possibilitando que mais pessoas no Brasil tenham acesso a serviços com qualidade e segurança.