Publicado em 15 setembro 2020 | Atualizado em 15 setembro 2020

A dispensação de medicamentos no ambiente hospitalar exige do farmacêutico responsável, além do conhecimento técnico, uma prática humanista. Sobretudo dentro de um hospital, onde a farmácia ultrapassa a esfera comercial e atua primordialmente como um serviço de assistência à saúde.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais da metade dos medicamentos tem prescrição, venda ou dispensação inadequada. Isso se dá pela ausência de boas práticas, seja numa farmácia hospitalar ou numa drogaria.

Um dos fatores que refletem a importância da farmacovigilância e da necessidade de atenção à dispensação de medicamentos é o uso irracional, que pode ocorrer das seguintes maneiras:

  • polifarmácia (uso de cinco ou mais medicamentos por paciente);
  • uso de antimicrobianos para infecções não bacterianas, muitas vezes em doses inadequadas;
  • excesso de injeções no lugar de fórmulas orais que seriam mais apropriadas;
  • prescrição em desacordo com as diretrizes clínicas;
  • automedicação inapropriada de medicamentos prescritos anteriormente;
  • não adesão aos regimes de dosagem.

Desse modo, as boas práticas para o uso racional de medicamentos são fundamentais, pois garantem a eficácia do tratamento e a segurança do paciente. E também assegura a eficiência do processo e a economia de recursos pois evita o desperdício de medicamentos.

Por tudo isso, trouxemos neste artigo alguns exemplos de boas práticas na dispensação, para melhorar a abordagem e tornar o tratamento do paciente mais seguro. Confira!

Como ocorre a dispensação de medicamentos?

No hospital, o farmacêutico é responsável pela dispensação de medicamentos aos pacientes, conforme a prescrição do médico. Contudo, o processo de dispensação não está concentrado apenas na entrega da medicação nas doses e horários recomendados.

Também são realizadas etapas que incluem armazenamento, classificação, triagem de prescrições, controle de acesso e separação dos medicamentos.

Desse modo, vale ressaltar que a dispensação depende de um gerenciamento de medicamentos adequado, pois isso influenciará diretamente no processo.

Existem, basicamente, quatro tipos de sistemas de dispensação. São eles:

1. Sistema Coletivo

Nesse sistema, a farmácia hospitalar fornece os medicamentos conforme pedido feito pelo setor solicitante. Desse modo, por não ser focada no paciente, esse tipo de dispensação tende a gerar um uso irracional.

É como se a farmácia fosse um mero distribuidor, onde o armazenamento é feito a partir de estoques descentralizados, retirando das mãos do farmacêutico o controle na dispensação de medicamentos.

2. Sistema Individualizado

Aqui, as solicitações recebidas na farmácia hospitalar são feitas pela equipe de enfermagem, que transcreve as prescrições médicas. Assim, a dispensação é feita conforme cada receituário individual. O sistema individualizado é considerado um pré-requisito para o sistema unitário.

3. Sistema Unitário

Nos Estados Unidos, desde a década de 1960 é adotado o sistema unitário. Devido suas inúmeras vantagens, ele aparece entre as boas práticas de dispensação de medicamentos.

O principal benefício desse sistema em relação aos demais está no controle da farmácia quanto ao uso racional. Conforme a prescrição médica individualizada, os medicamentos são separados e identificados com o nome do paciente, número do leito e horário da administração.

Assim é possível integrar o farmacêutico à equipe multidisciplinar, reduzindo os erros de administração.

4. Sistema Misto

A dispensação de medicamentos pelo sistema misto combina o coletivo ao individualizado, sendo bastante utilizado em cerca de 13% hospitais brasileiros. Nesse caso, para algumas unidades específicas, como ambulatório, radiologia e emergência, a dispensação é feita pelo sistema coletivo. Nos demais setores, se aplica o sistema individualizado.

Erros mais comuns durante o processo

Erros na dispensação de medicamentos ou quaisquer falhas no processo podem significar uma “quebra” no tratamento. Podendo, inclusive, resultar em efeitos colaterais e reações adversas, colocando a saúde do paciente em risco.

Como resultado, o farmacêutico pode responder administrativamente ao Conselho Regional de Farmácia (CRF). Ou mesmo a processos judiciais por imprudência, imperícia ou negligência, pois assume o risco de danos temporários ou permanentes.

Vejamos a seguir uma lista de erros mais comuns na dispensação de medicamentos:

  • prescrição sem informação de quantidade;
  • receituário sem informação de horário;
  • prescrição sem indicação de forma farmacêutica;
  • dose excessiva ou omissão de dose;
  • prescrição sem indicação de concentração;
  • medicamento dispensado com concentração incorreta;
  • dispensação com problemas de rotulagem;
  • medicamento dispensado diferente da prescrição ou sem prescrição;
  • desvio de qualidade do medicamento dispensado;
  • dispensação de medicamento vencido;
  • dispensação de medicamento alheio à legislação brasileira.

Em alguns casos, a depender do tipo de medicamento, o potencial danoso é maior, ainda que erros ocorram com menor frequência. Desse modo, as boas práticas também partem do princípio de prevenir erros de dispensação dentro da farmácia hospitalar.

Exemplos de boas práticas na dispensação de medicamentos

Uma das razões do processo de dispensação de medicamentos está em analisar e corrigir eventuais problemas na prescrição. Sobretudo, ela visa a redução de riscos ao paciente, a fim de que ele receba o tratamento adequado. Logo, essas ações estão diretamente ligadas à qualidade da gestão.

Porém, existem algumas boas práticas que devem ser levadas em consideração para que os objetivos sejam atingidos. Uma delas passa pela adoção de um método de dispensação totalmente focado no tratamento e no paciente.

Veja a seguir algumas das principais boas práticas que devem ser adotadas na farmácia hospitalar para uma dispensação de medicamentos mais eficiente e segura:

Armazenamento seguro e controlado

O armazenamento correto faz parte das boas práticas farmacêuticas determinadas pela legislação brasileira. Obviamente, dentro do processo de dispensação, a gestão de suprimentos hospitalares é fundamental, pois está relacionada à disponibilidade dos itens.

Portanto, podemos inserir entre as boas práticas de dispensação de medicamentos o controle e segurança no armazenamento. Bem como a implementação de sistemas automatizados de monitoramento e acesso, garantindo ao farmacêutico um gerenciamento mais eficaz do processo.

Controle de prescrição

Implementar níveis de controle sobre as prescrições pode ser uma entre as boas práticas na dispensação. Por exemplo, limitar o número de unidades dispensadas, diminuir a validade e condicionar prescrições a certos resultados, são maneiras de estabelecer uma vigilância maior sobre o uso de medicamentos dentro da farmácia hospitalar.

Controle de acesso

A redução de erros de dispensação e o uso racional dependem também de um acesso mais controlado. Como parte das boas práticas, essa ação prevê o envolvimento do farmacêutico com a equipe, a fim de informar e orientar sobre os riscos associados a certos medicamentos.

Nesse sentido, racionar as quantidades também pode ser uma forma de controle. Especialmente nas situações onde o risco é mais alto, pode ser necessário implementar um programa de vigilância e acesso restrito.

Unitarização

O método de dispensação por doses unitárias é considerado atualmente como o mais racional e seguro. Infelizmente, poucos hospitais brasileiros utilizam esse sistema, pois ele demanda investimentos em tecnologia e requer uma equipe dedicada ao processo.

Com a unitarização, a prescrição médica é encaminhada pela equipe de enfermagem à farmácia hospitalar. Lá, são realizadas a triagem, análise da prescrição, o perfil farmacoterapêutico e a preparação das doses.

Posteriormente, as doses unitárias são encaminhadas para o setor de enfermagem prontas para serem administradas. Esse método apresenta muitos benefícios, como:

  • redução dos erros de administração;
  • identificação do medicamento até o momento da administração;
  • diminuição do tempo empregado pela equipe de enfermagem;
  • redução dos estoques periféricos e diminuição das perdas;
  • processo de devolução otimizado;
  • precisão no faturamento do consumo por paciente;
  • segurança para a equipe médica quanto ao cumprimento da prescrição;
  • eliminação de erros na transcrição de receituário;
  • efetividade na participação do farmacêutico para definir a terapia medicamentosa;
  • melhor adaptação aos sistemas informatizados.

Dispensação por prescrição digital

A partir da implementação de sistemas integrados de gestão, é possível ter um acesso mais amplo às etapas da dispensação de medicamentos. Isso inclui adotar a prescrição digital.

Com esse formato de receituário, é possível evitar erros na interpretação das prescrições, por exemplo. Sem contar que um sistema digitalizado é capaz de identificar o tratamento proposto, verificando a conformidade com os protocolos clínicos.

Ao passo que otimiza os processos, essa ferramenta torna a dispensação de medicamentos mais segura e eficiente.

Gostou de saber sobre boas práticas na dispensação de medicamentos? Então aproveite e confira o artigo Farmacovigilância: de olho no uso racional de medicamentos.

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Isabella Ribeiro

Analista de Marketing

Trabalho todos os dias para ajudar o setor de saúde a ser mais digital e eficiente, possibilitando que mais pessoas no Brasil tenham acesso a serviços com qualidade e segurança.